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Foto: Deolhonacapital


Emanuel Medeiros Vieira nasceu em Florianópolis, SC, em 1945. Morou muitos anos em Brasília e hoje reside em Salvador. Formado em Direito pela UFRGS (1969). Foi cineclubista, professor, crítico de cinema, editor, vendedor de livros, jornalista e funcionário público. É detentor de diversos prêmios literários nacionais. Tem 17 livros publicados. Terminou uma longa obra intitulada “Cerrado Desterro”, espécie de memórias de geração, que será publicada pela Thesaurus Editora. Ativo militante da política estudantil, foi dirigente do IEPES, embrião da Fundação Pedroso Horta. Redator de discursos parlamentares, foi membro do conselho editorial do jornal “Movimento”, e correspondente em SC do semanário “Opinião”. Sua obra foi elogiada e estudada – entre outros escritores e críticos – por Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Afrânio Coutinho, Antônio Cândido, Mário Quintana, Caio Fernando Abreu, Antonio Olinto, Hélio Pólvora, Carlos Appel, Assis Basil, Moacyr Scliar, Jorge de Sá, Rubem Mauro Machado, Anderson Braga Horta, Ronaldo Cagiano, Salim Miguel, Silveira de Souza, Flávio Cardozo, Alberto Crusius, Antônio Carlos Vilaça, Leo Gilson Ribeiro, Lourenço Cazarré, Ruy Espinheira Filho, Dionísio da Silva, Nei Duclós, Antônio Hohlfeldt, Celso Huffell, José Santiago Naud, Nelson Hoffmann, Herculano Farias, Rodrigo de Haro, Pedro Port, Joanyr de Oliveira e Paulo Leminski. Em “Cerrado Desterro” (com cerca de 50 depoimentos de amigos) medita, entre outros temas – sobre sua participação e de outros amigos de geração – como Luiz Travassos –, na luta. contra a ditadura militar, a clandestinidade, a prisão política, a saída do país, e o seu incansável trabalho em favor da anistia política. 



ROMARIA (NO TERRITÓRIO DOS AFETOS)

(Carta para Lucas, Clarice, Célia, Maurício e Américo)


Uma missiva sentimental demais


“Só uma palavra me devora: aquela que o meu coração não diz”. (Suely Costa)  

Não reparem: é  romaria interior,

 fragmentada carta não postada,

 pobre prosa poética,

tosco hino de amor,

sentimental demais,

ouvindo Elis Regina

(ela também nasceu em 1945)

e Renato Teixeira. 

Peço que toquem “Romaria”  no dia da minha partida – hora de descer aos sete palmos.

(Queria também outras duas músicas, mas não é de bom dar muito trabalho nessa hora.)

Se algo ficar na retina de vocês, será na riqueza de alguma recordação,

somos criaturas da memória,

finitos continuamos sendo,

um dia, estaremos unidos numa coisa só: pó, estrume, rio, mar, fundidos nesse cosmos.

Nessa carta, eu queria informar –

quando eu for embora, se quiserem me “ver”, indico três locais:

A servidão que leva à casa azul e branca da Lagoinha

(havia um pé  de pitanga), na minha mítica Desterro (não a cidade desfigurada de hoje), a Ilha em que nasci.

O segundo local: o Parque da Cidade, ou na entrada da SQS 114, em Brasília – no pilotis do meu bloco, onde peguei o Lucas no colo, ele só tinha poucos meses de vida, eu saía do hospital, mas a infecção ainda estava no meu corpo, vieram recidivas, mas isso agora não importa, a grama estava seca, comecei a chorar, e fui tomar um cafezinho com rosquinha na padaria, pois havia “sobrevivido” contra a previsão dos médicos (haviam me dado só dois dias de vida), já tendo recebido a unção dos enfermos por três vezes.

O tom parece piegas? É.

Me perdoem.

Estava escutando também  “Jesus Alegria dos Homens”, de Bach, e “Yesterday”.

São as três músicas que, afetivamente, mais me tocam nesse dia de hoje, no mês em que, se me for permitido, completarei 66 anos.

Hoje, no primeiro dia do mês de março de 2011, não consigo escrever de outra forma.

Há muito gestava o texto.

Já fizera vários rascunhos.

A morte? Passagem.

O tempo – que antes me atormentava – está mais serenado no meu coração.

Ele – segundo o meu saudoso amigo Caio Fernando Abreu –, é um orixá que não incorpora porque humano algum suportaria o seu peso.

Insisto (antes de dar os trâmites por findos), olhando bem, você me enxergarão “além de mim”.

O terceiro lugar no qual vocês me “verão”, será aqui em Salvador, na Praça Castro Alves, um local maravilhoso, onde amo contemplar a Baía-de-Todos-os Santos.

Se Ele Existir, foi um dos locais em que cheguei muito perto Dele.

E agora anoitece.

A raiz do meu amor por vocês é irrevogável –

vai comigo à eternidade.

Nos três locais, vocês me verão, sim, me enxergarão além do esquecimento, além desta breve passagem, além de mim, além da vida, além do pó do que serei.

Sim, me verão – estrela, semente, ou bússola em busca de um oceano maior.

(E ensinem para os seus filhos: é nosso dever reconhecer o mérito de quem cumpre a vida.)

________________________


ETERNIDADE
(E APROPRIAÇÕES)


    Agradecendo aos autores que “pilhei”


          
         Para Maura Soares
Onde estão as estantes dos livros que não escrevemos?

De todos os livros lidos?

E tantos ainda faltam.

“Estendem-se pelo espaço remoto da biblioteca universal”

Aproprio-me do que já foi pensado

(e tudo já foi concebido):

“Estamos sempre no começo do começo da letra A”.

E assim chegaremos à eternidade:

a infância debruçada sobre nós  – minha peregrinação:

“Há um caminho por onde passo/e outro que passa por mim/

Um anda por meus passos/e não tem fim/O outro é onde meus passos perderam-se de mim.”

(Miguel Sanchez Neto).

Eternidade:

o  tempo é um orixá que não incorpora porque humano algum suportaria o seu peso?

Passamos,

Em cada amanhecer, chegamos mais “perto”:

não  adiantam as artimanhas.

Até quando?

E a sede de Infinito não cessa nunca.

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SUL DA BAHIA: PARAÍSO AMEAÇADO

    

Queria falar sobre uma viagem pelo interior da Bahia, no carnaval, rodando quase 2000 quilômetros. Neste relato, vou concentrar minha meditação no belo Sul do Estado, mais especificamente, à região cacaueira (cuja geografia literária, conheci  aos 20 anos, lendo os romances de Jorge Amado, como o belo “Terras do Sem Fim”).

E é exatamente essa linda região que está sendo ameaçada.

O Sul da Bahia é caracterizado por seu enorme patrimônio ecológico – paisagens de valor histórico e espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção.

Neste lugar especial é que está sendo preparada a instalação do Complexo Porto Sul, com graves impactos, conforme denúncias de mais de 90 organizações da sociedade civil, que já assinaram um manifesto pelo desenvolvimento sustentável e contra a referida obra.

A região do empreendimento é parte da Área de Proteção Ambiental da Lagoa Encantada e Rio Almada, com manguezais, dunas e restingas e espécies raras da fauna e flora, locais que seriam gravemente afetados.

A área onde se prevê construir o complexo tem uma importância planetária no que tange à sua mega-biodiversidade, como observa a Rede Sul da Bahia Sustentável, que tem se mobilizado contra o  empreendimento .

É reconhecida pela UNESCO como reserva da Biosfera da Mata Atlântica e foi objeto de narrativas de importantes naturalistas – tais como Von Martius, Von Spix e Charles Darwin – que descreveram a região, constatando sua beleza natural, sua rica biodiversidade e os recifes de coral lá presentes.

 

Estudos mostram que há alternativas menos impactantes e mais eficientes em termos econômicos, sociais e ambientais.

Além disso, atividades como o cacau, o turismo ambiental e a pesca – que são economicamente viáveis e de baixo impacto socioambiental –, valorizam a vocação da região.

O porto oferecerá poucos empregos, exigindo a contratação de mão de obra fora da região, promovendo o crescimento desordenado e caótico das cidades e vilas.

 

A cultura do cacau é responsável   por mais de 50% de toda a riqueza produzida no Sul da Bahia e emprega cerca de 200 mil pessoas.

Muitos empreendedores plantam cacau em meio à Mata Atlântica, com impacto mínimo na floresta.

Só a região no entorno de Ilhéus, possui uma das maiores frotas pesqueiras da Bahia, empregando mais de sete mil pessoas.

A região também vem se tornando um pólo relevante de tecnologia e produção científica – atividades que, por suas características não trazem impactos ambientais.

O turismo baseado no modelo de desenvolvimento sustentável, tem  papel fundamental no combate à pobreza.

O Sul da Bahia é um dos destinos mais importantes do Brasil, graças à natureza exuberante e ao patrimônio histórico.

A Bahia não merece tal Porto.

Itacaré é um dos lugares mais bonitos do litoral brasileiro. O local também será afetado.

Deixo para outra meditação: o governador quer trazer a todo custo uma usina nuclear para a Bahia.

Às vezes, penso que o Apocalipse está nos nossos calcanhares.

Alguns não percebem, outros ironizam e debocham de tais reflexões.

O que está em jogo é a vida. Sim, a vida.

Quando a maioria dos seres humanos descobrirem a Besta, poderá ser tarde – muito tarde – para a salvação.