Maria Madalena chegava aos seus 60 anos de idade, morando com suas três filhas solteironas, além de ter sempre por perto os dois filhos casados, que escaparam da vida de solteiro após muita persistência. Maria Madalena era um misto daquela mulher submissa de sua época (similar à mãe do Caso do Vestido, de Drummond), com a mulher de transição do séc. XXI, uma pãe, mistura de pai e mãe.
Traumatizada pelo fato de ter sido abandonada pelo marido há mais de duas décadas, Maria Madalena fazia questão de expressar a sua repugnância pelo sexo oposto. E fazia questão de repetir, todo santo dia, todas as dificuldades que enfrentara para criar os cinco filhos, sozinha e com dignidade, exacerbando a velada chantagem emocional sobre sua prole, como um meio de manter total controle sobre a família.
Sendo filha de imigrantes e tendo recebido uma educação rígida e quase xenófoba, Maria Madalena se recusava a ser receptiva com as amizades dos filhos: coisa de escola deveria ser resolvida na escola, coisa do trabalho deveria ser resolvida no trabalho, e ninguém deveria trazer esses assuntos para dentro de casa, a casa era sagrada, só da família. Dessa maneira, os filhos nunca conseguiam manter os laços de amizade com ninguém. Maria Madalena se sentia a própria deusa do destino de todos. Será?...
A primeira filha, Mariana, dotada de uma inteligência fora do comum, sempre se destacava na escola. Mesmo quando precisou trabalhar durante o dia e estudar à noite para ajudar a mãe a sustentar a casa, Mariana continuou se destacando. Mas Maria Madalena nunca comparecia aos eventos que homenageavam Mariana, ao contrário, logo tratou de se mostrar indiferente, como um iceberg. Mariana terminou o curso universitário, passou num concurso público e, a partir daí, passou a ser o principal pilar da casa, com a responsabilidade de acatar a todas as vontades de sua mãe, pois, sensível, era incapaz de impor suas próprias idéias para afrontar a mãe. Quando surgiu o primeiro amor de sua vida, viu-se obrigada a abrir mão dele, pois ao saber do fato, Maria Madalena imediatamente adoeceu e só se restabeleceu quando a filha desistiu daquela ideia descabida. A vida de Mariana não via as cores da primavera, seu cotidiano era só trabalhar e voltar pra casa, o seu único orgulho era saber que todos os seus irmãos precisavam de seu apoio.
A segunda filha Aninha foi a que mais sofreu com a ausência do pai. Por isso, apegou-se à mãe de forma incondicional. Era feliz com todas as regras impostas por Maria Madalena. E sentimentalmente, nunca deu trabalho à mãe, pois não se interessava por ninguém, tinha poucas amizades, não saía para se distrair, estudava e trabalhava, e se ocupava com todos os afazeres da casa nos momentos de descanso. Tamanha pureza era o retrato de um ser quase assexuado.
A terceira filha ficou revoltada com o abandono do pai. De uma beleza escultural, Anita era intempestiva e imprevisível. Aos quinze anos decidiu ir morar na capital sozinha, para trabalhar e estudar. De nada adiantou a mãe cair doente com a notícia, repetindo sem parar: você quer matar sua mãe de desgosto? Etc... Mas recebeu o apoio afetivo e financeiro de Mariana. Na capital, Anita conheceu Giusepe e nem se deu ao trabalho de levá-lo para a família conhecer, porque já sabia que sua mãe lhe veria inúmeros defeitos. Talvez por estar longe da família, casou-se e conseguiu ser dona de sua própria vida. Linda, decidida, perfeccionista, dona de si, escreveu os capítulos de sua própria história sem saber que era praticamente o clone da mãe, que antes de ser aquela mulher amargurada, havia sido lindíssima, autossuficiente, até arrogante, cobiçada pelos melhores partidos de sua época, escolheu o homem errado, afrontou seus pais, se deu muito mal... até ser a Maria Madalena que iniciou esse conto.
A mesma sorte de Anita teve o irmão caçula, Edmundo, que sendo meigo e carinhoso, não despertou a ira da matriarca, ao contrário, presenteou a todos com sua prole numerosa. Em pleno séc. XXI, ter uma sequência de filhos, ou como diziam antigamente, ter uma escadinha de filhos, era de uma coragem indescritível. Na hipérbole popular, ele não podia olhar para a esposa que ela já anunciava: engravidei! Por uma ironia do destino, a cunhada de Edmundo gastou horrores em tratamento médico de fertilização durante uma década, mas não conseguiu ter filhos.
A mais calada e observadora de todos os filhos era Lucíola. Ninguém nunca sabia o que estava pensando, mas sua aparência plácida jamais despertou qualquer conflito. Gostava de cantarolar a música do grupo Titãs: “Família, família, janta junto todo dia, nunca perde essa mania...” Recebeu uma boa formação, graças ao apoio de Mariana. Suas inquietações eram guardadas para si mesma: não se conformava com as atitudes da mãe, mas também não a afrontava. Fingia que não se importava por não poder aprofundar suas amizades, mas não abria mão delas. O primeiro amor de sua vida aconteceu naturalmente, com um homem bonito, rico e culto que se apaixonou por ela, apesar de ser casado e muito mais velho que ela. O romance secreto só chegou ao fim quando ele se divorciou e disse que queria conhecer a família de Lucíola, que, sem saber como agir, rompeu com seu amor, deixando-o arrasado.
Ao longo dos anos, Lucíola tentou namorar como manda a tradição, mas todos foram afugentados pela rabugice de Maria Madalena, e a tática era sempre a mesma: ninguém voltava à casa de Lucíola após duas visitas, pois a interferência da sogra no relacionamento do casal era de tal dimensão, que nada dava certo. Naquela garotinha plácida da adolescência, foi nascendo uma outra Lucíola, ou como ela própria ironizava, um furacão por forças externas: seu nome atraía o bem da luz, mas também o lado negro do nome Lúcifer era o que dizia o dicionário onomástico. E ela ainda complementava rindo: sem contar que meu signo ocidental é leão e o oriental é cão. Precisa dizer mais alguma coisa? E muito seriamente ainda acrescentava que, na família, uma roubou toda a inteligência e o fogo de Prometeu, enquanto a outra roubou toda a beleza grega – então o que sobrou? Nada. Ah, sim, ela ainda tinha uma mãe possessiva ao extremo, para completar o quadro.
Um dia, Lucíola resolveu conversar francamente com suas irmãs, pois achava um absurdo que elas se contentassem com aquela vida tão sem graça, sem amores, sem amizades, sem novidades... A princípio, Aninha ficou horrorizada ao saber que Lucíola não era mais virgem. Apesar de tudo, não a julgou mal. Lucíola fez questão de falar sobre o tempo, que é indelével, não perdoa, ele passa e não volta mais. Agora que todos já estavam bem encaminhados, por que não ser um pouquinho mais ousados e felizes?
Depois daquela conversa franca algumas coisas progrediram: Mariana não se casou, mas teve um lindo filho com o seu primeiro amor, e de tanto plantar o bem, recebeu o bem de volta com juros e correção monetária; Anita continuou a ser o braço direito da mãe, entretanto, sem aceitar os estardalhaços extremos, ganhou muitas amizades sinceras, e por fim, ainda conquistou um amor que contrariava todos os perfis possíveis e imagináveis naquela situação. E Lucíola teve outros namorados, sem que a mãe soubesse, pois esse era o melhor caminho para cada um ter o seu próprio espaço. O mais interessante de tudo, foi o imenso amor que Maria Madalena passou a sentir pelos netos. A partir dali, todos os conflitos da casa aconteciam em função dos netos.